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Le Journal Gauche
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"Puisque ma vie n'est rien, alors je la veux toute. Tout entière, tout à fait et dans toutes ses déroutes. Puisque ma vie n'est rien, alors j'en redemande. Je veux qu'on m'en rajoute, soixante petites secondes pour ma dernière minute." 28.1.08 ![]()
FERNANDA SAMICO 10:07 AM 25.1.08
FERNANDA SAMICO 9:26 PM 22.1.08 "E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo prazer lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de coitos e de acertos. Ou tenta-me de novo. Obriga-me." (Hilda Hilst, Do Desejo - 1992)
FERNANDA SAMICO 10:34 PM 10.1.08 Sabe, é um jogo. Tipo xadrez. Eu mexo uma peça e você mexe outra.
E essa expectativa pra saber qual é a próxima jogada é um certo desgaste que nem sempre eu sei se paga. Na verdade eu nem sei se você quer jogar. E eu nem preciso jogar. E eu preciso jogar. Acho que eu preciso é da sensação da boa jogada, do ritmo da jogada e da existência do jogo. E você nunca tá no ritmo da jogada, mas mesmo assim meu coração perde uma batida toda vez que você mexe uma peça no tabuleiro. Às vezes eu faço uma jogada arriscada. E morro por 2 segundos se você demora a jogar. Suspiro.
FERNANDA SAMICO 12:01 AM 6.1.08 ![]() Morangos Silvestres Manoela Montero É filme para degustação! É filme para compartilhar detalhes. É filme para saborear e sentir o que é Arte! De cada diálogo é possível escrever páginas. De cada cena é possível extrair Freud e seguidores e, com certeza, sem que façam jus à sutileza do emocional ali desvendado. Em cada cena dos sonhos e devaneios está a riqueza da construção do imaginário encobrindo e desvelando sentimentos. O filme se passa em dois dias e gira em torno da homenagem ao prof. Borg, por seus 50 anos dedicados à ciência, em seus já 78 anos de existência. Uma vida dedicada ao trabalho. Mulher falecida. E um filho que seguiu sua carreira. Um cachorro leal e companheiro. Na velha e sólida casa, tudo é o mesmo: os horários de refeição, a disposição de objetos e também a empregada, que há 40 anos conhece detalhes, hábitos e cumpre rigorosa e orgulhosamente suas funções. O afeto existe, mas é trocado entre farpas e azedumes, padrão desenvolvido e mantido ao longo de anos. O afastamento das relações sociais foi uma maneira de afastar-se do que não pode mudar: avaliações, críticas e discussões. Para ele, velhice e solidão parecem caminhar inextricavelmente juntas. A homenagem é um fato novo, gerador de expectativa e de mudanças, dentro desta rotina metodicamente seguida. No entanto, ela não é um marco a mexer apenas na rotina externa de um viver. Ela mobilizou o interno e um sonho-pesadelo povoou a noite de Isak. A morte está lá, a espreitá-lo. No desconhecido de um caminho deserto, entre as ruínas de um viver descuidado, o Tempo não mais é marcado e os olhos estão esbugalhados e sem vida. O corpo não tem estofo e cai; o sangue se esvai pelos vãos dos paralelepípedos da rua. A carroça de funerais traz um caixão que cai e de dentro sai o braço do Isak-morto que puxa a mão do Isak-vivo. Terror! Despertar! Pensa consigo: “Serei eu um professor-honorário ou um idiota-honorário? Mudar a programação! É imperativo ir de carro e não mais de avião. A nora o acompanha. Revelações vão se fazendo por todo o trajeto. Isak escuta e vê! Vê ao outro e a si mesmo! E se surpreende e se enternece. Marianne e Evald vivem conflito conjugal. O casal é prisioneiro de uma dívida para com ele que nunca será saldada. “Sinto pena do senhor!”. Seu rosto se contrai ao ouvir que seu filho pode até odiá-lo. Revisita a casa em que a família passava os verões. Em devaneios, revê cenas da juventude: a prima amada, Sara, que se deixa seduzir pelo seu irmão e o trai com ele, na ontológica cena do beijo e da cesta de morangos silvestres; os vários irmãos (as) e primos (as); a severidade sem fim de sua mãe. É marcante seu olhar de profunda tristeza ao presenciar estas cenas. Ao fim, diz à nora: “Sara casa com Abraão, e não com Isaac”. Encontros marcantes acontecem durante a viagem. A jovem Sara e seus dois pretendentes: Victor e Anders, em viagem para a Itália. Com eles, Isak revive sua própria juventude e amores. Ali estão a jovialidade e a sensualidade; as conversas acerca da existência ou não de Deus e as questões de um futuro por chegar: Quem irá mais longe? O casal do carro com o qual têm um pequeno acidente sem vítimas. Mas, não é sem vítimas o embate entre eles: a ironia, a acidez, o ridículo a que expõem um e outro. A agressividade é tão letal que Marianne os coloca fora do carro, antes que todos sejam atingidos pelo clima de destrutividade. O homem do posto de gasolina que se lembra dele e muito lhe é grato, e ainda afirma: “Todos se lembram do que fez por eles!”. Ao que ele murmura: “Deveria ter ficado aqui”. No intervalo do almoço, Isak descobre-se sendo interessante e fazendo-os rir, naturalmente, com seus causos de médico. Está feliz e declama versos de um poema de amor. Na visita à casa “da velha senhora”, Marianne descortina a frieza na relação, nos gestos e nas referências ao passado e às pessoas. Também ali o tempo parou; o relógio ficou sem ponteiros. Assusta-se com o traço familiar que também atingiu seu marido, que se nega a viver e a ter filhos, “para não ser forçado a viver mais do que deseja”. Cansado da viagem, Isak adormece ali mesmo no carro, e sonha. “Imagens tangíveis e humilhantes penetram minha mente com determinação”. As várias cenas: o amor de Sara pelo seu irmão. Sara que embala o bebê, mas não a ele. Do berço à velhice; da árvore frondosa à árvore seca e arqueada. O amor só olhado pela janela, mas não vivido. As perguntas de um exame que o classificam “incompetente”. As acusações que lhe são feitas pela sua própria mulher, que lhe atribui a culpa por tê-lo traído. E a frase final do inspetor: “A pena é a de sempre... solidão!”. E Isak: “Não há clemência?”. Não. Tudo se foi. Só há silêncio! Aqui vemos o trajeto interno que Isak percorreu e assim conseguiu desvelar um universo de emoções encobertas e encobridoras que fizeram dele o homem chamado de “egoísta, frio, indiferente, sem consideração pelo outro e que só ouvia a si mesmo”. E ele vai se libertando, mesmo sem o saber. Diz: “Parece que quero me dizer algo que não quero ouvir acordado: ‘Que estou morto, apesar de vivo’”. Ouve mais uma vez as grandes revelações de sua nora: a gravidez, o sentimento de rejeição do filho, a vida-sem-vida que ele leva. “Sou um filho indesejado de um casamento infernal. Será que sou filho de meu pai?”. A cerimônia de homenagem mais parece um funeral. E o é! O funeral de um tempo e de um jeito de viver. Isak desvelou o passado e ouviu seu próprio brado escondido em uma canção de ninar (no detalhe do sonho sonhado no carro) e no poema de amor (declamado entre ele, Marianne e Anders, durante o almoço, num restaurante à beira da estrada e do lago). Sob uma árvore frondosa, um berço. Sara, a prima jovem, vai até lá, toma nos braços o bebê e embalando-o, entoa: “Não tenha medo do vento, dos pássaros, dos abutres, das ondas do mar... Eu estou aqui com você. Vou abraçá-lo, agora. Logo amanhecerá. Não tenha medo. Ninguém vai machucá-lo. Eu estou aqui com você”. Versos declamados: “Onde está o amigo que procuro em toda parte? O amanhecer é a hora da solidão e do carinho. Quando o dia se vai, ainda não o encontrei. Um fogo invade meu coração. Sinto Sua presença. Vejo Sua glória poderosa onde nascem as flores As flores têm perfume, e as montanhas se elevam. Seu amor está no ar que respiro. Ouço Sua voz sussurrando no vento do verão”. Sua busca por ser acolhido havia encontrado eco em si mesmo. Podia ser expressivo e afetivo com quem quer que fosse: a velha empregada e, sobretudo, seu filho. A nora o acolhe e abraça, num gesto de gratidão pelo marido e pelo pai-sogro que agora passava a ter. As marcas de falta foram retiradas das lembranças. Agora, elas podem ser buscadas quando ele está preocupado ou triste. E o levam para onde todos nós queremos também ir: à paz de um lago e à companhia idílica dos pais e do casal amoroso que se pode vir a ser. E o sorriso aparece no seu rosto, enquanto dorme.
FERNANDA SAMICO 6:25 PM 3.1.08 Alice e a moto
A vibração do motor fazia seus músculos tremer. Alice gostava da sensação. Gostava também do cheiro que vinha da jaqueta daquele tão providencial motoqueiro. A cidade agora havia tomado corpo. Eram casas das mais variadas cores, ruelas estreitas, árvores, crianças brincando... Tudo isso Alice via como um borrão, enquanto tentava, sem sorte, afastar algumas mechas de cabelo que, com o vento, insistiam em cobrir sua visão. A moto serpenteava pelas ruas da cidadela. Alice, segurando firme na cintura de seu cavaleiro, tentava manter o equilíbrio. "Ele dirige como um louco!", pensou enquanto outra manobra se anunciava. O cabelo do motoqueiro fazia cócegas no rosto de Alice e o cheiro, que ora era suave e ora marcante, despertava nela um torpor muito parecido com a sensação que tivera ao contemplar a visão hipnotizante do pôr do sol naquela janela. A janela que pulara e que fora a saída de seu cárcere, justamente quando já desistira de sair. De repente a moto parou. "A moça quer descansar? Tá com uma cara..." Perguntou, com um sotaque divertido, o motoqueiro, enquanto decia da moto. "A moça tem nome. Sou Alice. Como se chama essa cidade?" Mesmo com um pouco de dificuldade para pôr os pés no chão, Alice não pôde deixar de reparar como o azul do céu casava bem com a camisa do motoqueiro. E seus dentes combinavam perfeitamente com a parede branca de cal da casa onde haviam estacionado. Enquanto a amparava, ele disse: "Nomes são engraçados. O desta cidade é Agujeros e combina muito bem, já verás. O meu, ainda não sei, não encontrei um que combinasse." Sorriu e meneou a cabeça, como numa brincadeira. "Vem, entra, vamos cuidar dos seus pés.", disse em seguida.
FERNANDA SAMICO 9:48 PM
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